Thursday, June 18, 2026

2 - A velha rede do quarto

 

Existem momentos que mudam sua vida para sempre. Naquele instante você ainda não sabe disso, mas, dali, muitas ramificações começam a se desenvolver. Se aquele momento não tivesse acontecido, minhas filhas não seriam canadenses, só para citar um exemplo.

Estava eu conversando com o meu professor boliviano, Miguel Eduardo Moreno Anez, quando um instante desses aconteceu. Eu era membro de sua base de pesquisa na Universidade Federal do RN. Ele abriu um sorriso e tirou de sua bolsa uns livretos da HEC Montréal, universidade onde estava sendo convidado para fazer seu pós-doutorado. Eu olhava aquilo em transe. Fiz elogios empolgados e ele, na hora, disparou: "Quer ir fazer seu mestrado lá? Eu te ajudo no que for preciso, menos dinheiro". Fui embora dali como se o meu destino fosse fazer aquele mestrado. Bateu forte no meu peito.

Fui direto conversar com meu pai. Naquela época, só moravam meu pai, meu irmão, minha irmã e eu na nossa casa. Nossa mãe havia se separado e meu pai havia virado pai e mãe. Ele não sabia o que responder; foi pego de surpresa, como um soco no estômago. Imaginava ele que eu iria ficar ali, perto dele, até morrer. Hoje, como pai, entendo o que se passou pela cabeça dele. Ele apelou para o óbvio, dizendo que não tinha recursos financeiros para isso, como se tentasse conter uma enchente que já descia a ladeira. Eu não insisti naquela noite. Fui dormir. Ainda escutei quando ele disse: "Aí você vai embora?". Não respondi nada, continuei andando corredor adentro e fui deitar.

No outro dia, a primeira coisa que ele me disse foi: "Filho, se você quiser realmente ir fazer esse mestrado, nós damos um jeito. Arrumo dinheiro emprestado, mas não vou empatar seu caminho. Conte com seu pai". Dei um abraço nele, agradecendo, mas notei sua voz embargada. Eu nunca havia passado muito tempo longe dele.

O primeiro passo seria ter um certificado de proficiência na língua francesa. Como fazer isso rapidamente? Um curso de imersão na Université de Montréal. Arrumamos com muito esforço e ajuda dos amigos o dinheiro do curso em si, e a passagem eu dividi em doze vezes no cartão de crédito do meu amigo Alberto Campos — para meu pai pagar, obviamente. Depois, voltei para oficialmente me formar no meu curso de graduação na Universidade Federal. Passaram-se uns dois meses e chegou a hora de partir de vez, agora por tempo indeterminado.

À medida que ia chegando o dia da minha viagem, mais triste meu pai ficava. Até que chega o fatídico dia. O meu voo sairia à noite, do antigo Aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim. Meu pai avisou que iria tirar um cochilo, pois estava cansado. Era um domingo. Faltando uma hora para sair de casa, fui acordá-lo. Ele disse estar cansado, que o deixasse dormir mais um pouco. Meu amigo Flávio Teco foi me buscar. Avisei que estava indo e perguntei se ele não iria se despedir de mim.

Ele, deitado na velha rede do meu quarto, sem camisa, colocou o lençol por sobre o rosto. Não conseguiu falar. Acenou com a mão se despedindo e fez sinal para eu ir. Eu dei um beijo na testa dele e escutei o soluço. Naquele momento, eu vi, ao vivo, a morte da infância e do nosso antigo vínculo; a vida adulta, de fato, estava começando.

De certa forma, parece que meu pai morria ali para mim. Dali em diante, quando eu voltei, ele já tinha uma nova mulher e eu nunca mais fui o filho que eu sentia ser. Acho que, para se proteger, ele se fechou para mim para poder viver. Minha interação quando voltei pela primeira vez foi fria e distante por parte dele, como quem diz: "Não vou abaixar a guarda para depois sofrer de novo quando você for". Eu entendi e fiquei na minha, mas com uma profunda tristeza. Foi a percepção tardia da autodefesa emocional dele.

Essa foi uma das piores ramificações causadas pelo momento descrito no início do texto. O preço de construir uma história no Canadá foi deixar uma parte irremediável do seu relacionamento com o seu pai naquela rede em Natal. Descobri depois, na economia, o conceito de custo de oportunidade: a cada escolha existe uma renúncia. E, às vezes, elas são tão grandes que aleijam sua alma para sempre.

Thursday, June 11, 2026

1 - Sibite baleado


Em meados dos anos 80, na longínqua Natal, Rio Grande do Norte, existiu um cara que atendia pelo apelido de Paulinho, ou às vezes, o chamavam de Sibite Baleado. Paulinho trabalhava como faz-tudo na casa dos vizinhos dos meus pais, o casal Newton Saldanha e Eliecy. Ele era muito esperto e, quando terminava seus afazeres, sempre ia brincar com a meninada na rua. Jogar bola, ensinava a fazer “baladeira”, que no Sul chamam de estilingue. Ele acertava um pardal de longe; tinha aprendido no interior, dizia ele.

Paulinho ficava na rua com a gente até entrarmos. Ele gostava. Meus pais gostavam muito dele, afinal sentiam que tinha alguém na rua olhando a gente. Era como se Paulinho morasse na casa de todos ali. Ele estava sempre ajudando a todos, sempre com um sorriso no rosto. Por vezes, ele me chamava para ir com ele buscar Doutor Newton em algum lugar, num Del Rey branco que eles tinham. Eu ia na frente, com a cabeça do lado de fora da janela, numa alegria enorme.

Eis que, por ocasião de um feriado de Semana Santa, fomos para a Praia de Pitangui, no litoral norte potiguar, com minha tia Nalba e seu marido Zé Aurino. Chegamos domingo à tarde e encontramos uma grande comoção na nossa rua. O que tanta gente fazia ali, perguntei ao meu pai. Ele disse para ficarmos no carro e que iria procurar saber do que se tratava. Fiquei olhando pela janela a movimentação de gente entrando e saindo da casa dos Saldanha. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, meu pai volta com a notícia. Paulinho havia morrido. Comecei a chorar, minha mãe aflita querendo saber o que aconteceu.

Meu pai colocou o carro na garagem e, uma vez dentro de casa, contou. Antes, fez questão de fechar a porta para que os outros não ouvissem, em respeito. Paulinho estava com uma dívida e precisando de dinheiro. Naquela época não existiam drogas; imaginamos que devia ser dívida de baralho ou algo do tipo. Paulinho teve a ideia de roubar um botijão de gás da nossa casa, uma vez que sabia que não estávamos lá. Entrou facilmente pelo muro, pegou o objeto e foi vender na Mercearia de Medeiros, um conhecido comerciante do nosso bairro.

Medeiros desconfiou que se tratava de um produto de furto e pediu para Paulinho esperar, dizendo que não tinha interesse em comprar, mas que iria trazer um comprador. Ligou para a polícia. Pela demora, Paulinho desconfiou que Medeiros não iria arrumar comprador algum. Paulinho não era bobo. Pegou o botijão e apressou-se de volta para casa. Não deu tempo. A polícia o alcançou perto de casa. Os Saldanha também não estavam.

Paulinho, muito ágil, consegue escapar. Pula o muro rapidamente e, num ato de desespero, pega o revólver calibre 38 do Doutor Newton e atira contra sua própria cabeça, tirando sua vida. Para Paulinho, era melhor morrer do que perder a confiança das pessoas que tanto gostavam dele.

Depois de escutar, pedi para ir lá. Meu pai me levou, mas não deixaram eu ver o corpo. Meu pai não parava de repetir, dizendo que não fazia questão de botijão de gás, que não entendia o porquê de tanta tragédia por nada, como se desculpando por ser o dono do bem furtado. A rua ficou de luto por muito tempo. Paulinho era um membro da família da nossa rua. Passado tanto tempo, acho que não consigo encontrar um filho de Deus que se mataria porque foi pego roubando um botijão de gás. Não existem mais Paulinhos por aí.

2 - A velha rede do quarto

  Existem momentos que mudam sua vida para sempre. Naquele instante você ainda não sabe disso, mas, dali, muitas ramificações começam a se d...