Existem
momentos que mudam sua vida para sempre. Naquele instante você ainda não sabe
disso, mas, dali, muitas ramificações começam a se desenvolver. Se aquele
momento não tivesse acontecido, minhas filhas não seriam canadenses, só para
citar um exemplo.
Estava
eu conversando com o meu professor boliviano, Miguel Eduardo Moreno Anez,
quando um instante desses aconteceu. Eu era membro de sua base de pesquisa na
Universidade Federal do RN. Ele abriu um sorriso e tirou de sua bolsa uns
livretos da HEC Montréal, universidade onde estava sendo convidado para fazer
seu pós-doutorado. Eu olhava aquilo em transe. Fiz elogios empolgados e ele, na
hora, disparou: "Quer ir fazer seu mestrado lá? Eu te ajudo no que for
preciso, menos dinheiro". Fui embora dali como se o meu destino fosse
fazer aquele mestrado. Bateu forte no meu peito.
Fui
direto conversar com meu pai. Naquela época, só moravam meu pai, meu irmão,
minha irmã e eu na nossa casa. Nossa mãe havia se separado e meu pai havia
virado pai e mãe. Ele não sabia o que responder; foi pego de surpresa, como um
soco no estômago. Imaginava ele que eu iria ficar ali, perto dele, até morrer.
Hoje, como pai, entendo o que se passou pela cabeça dele. Ele apelou para o
óbvio, dizendo que não tinha recursos financeiros para isso, como se tentasse
conter uma enchente que já descia a ladeira. Eu não insisti naquela noite. Fui
dormir. Ainda escutei quando ele disse: "Aí você vai embora?". Não
respondi nada, continuei andando corredor adentro e fui deitar.
No
outro dia, a primeira coisa que ele me disse foi: "Filho, se você quiser
realmente ir fazer esse mestrado, nós damos um jeito. Arrumo dinheiro
emprestado, mas não vou empatar seu caminho. Conte com seu pai". Dei um
abraço nele, agradecendo, mas notei sua voz embargada. Eu nunca havia passado
muito tempo longe dele.
O
primeiro passo seria ter um certificado de proficiência na língua francesa.
Como fazer isso rapidamente? Um curso de imersão na Université de Montréal.
Arrumamos com muito esforço e ajuda dos amigos o dinheiro do curso em si, e a
passagem eu dividi em doze vezes no cartão de crédito do meu amigo Alberto
Campos — para meu pai pagar, obviamente. Depois, voltei para oficialmente me
formar no meu curso de graduação na Universidade Federal. Passaram-se uns dois
meses e chegou a hora de partir de vez, agora por tempo indeterminado.
À
medida que ia chegando o dia da minha viagem, mais triste meu pai ficava. Até
que chega o fatídico dia. O meu voo sairia à noite, do antigo Aeroporto Augusto
Severo, em Parnamirim. Meu pai avisou que iria tirar um cochilo, pois estava
cansado. Era um domingo. Faltando uma hora para sair de casa, fui acordá-lo.
Ele disse estar cansado, que o deixasse dormir mais um pouco. Meu amigo Flávio
Teco foi me buscar. Avisei que estava indo e perguntei se ele não iria se
despedir de mim.
Ele,
deitado na velha rede do meu quarto, sem camisa, colocou o lençol por sobre o
rosto. Não conseguiu falar. Acenou com a mão se despedindo e fez sinal para eu
ir. Eu dei um beijo na testa dele e escutei o soluço. Naquele momento, eu vi,
ao vivo, a morte da infância e do nosso antigo vínculo; a vida adulta, de fato,
estava começando.
De
certa forma, parece que meu pai morria ali para mim. Dali em diante, quando eu
voltei, ele já tinha uma nova mulher e eu nunca mais fui o filho que eu sentia
ser. Acho que, para se proteger, ele se fechou para mim para poder viver. Minha
interação quando voltei pela primeira vez foi fria e distante por parte dele,
como quem diz: "Não vou abaixar a guarda para depois sofrer de novo quando
você for". Eu entendi e fiquei na minha, mas com uma profunda tristeza.
Foi a percepção tardia da autodefesa emocional dele.
Essa
foi uma das piores ramificações causadas pelo momento descrito no início do
texto. O preço de construir uma história no Canadá foi deixar uma parte
irremediável do seu relacionamento com o seu pai naquela rede em Natal.
Descobri depois, na economia, o conceito de custo de oportunidade: a cada
escolha existe uma renúncia. E, às vezes, elas são tão grandes que aleijam sua
alma para sempre.

