Thursday, June 11, 2026

1 - Sibite baleado


Em meados dos anos 80, na longínqua Natal, Rio Grande do Norte, existiu um cara que atendia pelo apelido de Paulinho, ou às vezes, o chamavam de Sibite Baleado. Paulinho trabalhava como faz-tudo na casa dos vizinhos dos meus pais, o casal Newton Saldanha e Eliecy. Ele era muito esperto e, quando terminava seus afazeres, sempre ia brincar com a meninada na rua. Jogar bola, ensinava a fazer “baladeira”, que no Sul chamam de estilingue. Ele acertava um pardal de longe; tinha aprendido no interior, dizia ele.

Paulinho ficava na rua com a gente até entrarmos. Ele gostava. Meus pais gostavam muito dele, afinal sentiam que tinha alguém na rua olhando a gente. Era como se Paulinho morasse na casa de todos ali. Ele estava sempre ajudando a todos, sempre com um sorriso no rosto. Por vezes, ele me chamava para ir com ele buscar Doutor Newton em algum lugar, num Del Rey branco que eles tinham. Eu ia na frente, com a cabeça do lado de fora da janela, numa alegria enorme.

Eis que, por ocasião de um feriado de Semana Santa, fomos para a Praia de Pitangui, no litoral norte potiguar, com minha tia Nalba e seu marido Zé Aurino. Chegamos domingo à tarde e encontramos uma grande comoção na nossa rua. O que tanta gente fazia ali, perguntei ao meu pai. Ele disse para ficarmos no carro e que iria procurar saber do que se tratava. Fiquei olhando pela janela a movimentação de gente entrando e saindo da casa dos Saldanha. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, meu pai volta com a notícia. Paulinho havia morrido. Comecei a chorar, minha mãe aflita querendo saber o que aconteceu.

Meu pai colocou o carro na garagem e, uma vez dentro de casa, contou. Antes, fez questão de fechar a porta para que os outros não ouvissem, em respeito. Paulinho estava com uma dívida e precisando de dinheiro. Naquela época não existiam drogas; imaginamos que devia ser dívida de baralho ou algo do tipo. Paulinho teve a ideia de roubar um botijão de gás da nossa casa, uma vez que sabia que não estávamos lá. Entrou facilmente pelo muro, pegou o objeto e foi vender na Mercearia de Medeiros, um conhecido comerciante do nosso bairro.

Medeiros desconfiou que se tratava de um produto de furto e pediu para Paulinho esperar, dizendo que não tinha interesse em comprar, mas que iria trazer um comprador. Ligou para a polícia. Pela demora, Paulinho desconfiou que Medeiros não iria arrumar comprador algum. Paulinho não era bobo. Pegou o botijão e apressou-se de volta para casa. Não deu tempo. A polícia o alcançou perto de casa. Os Saldanha também não estavam.

Paulinho, muito ágil, consegue escapar. Pula o muro rapidamente e, num ato de desespero, pega o revólver calibre 38 do Doutor Newton e atira contra sua própria cabeça, tirando sua vida. Para Paulinho, era melhor morrer do que perder a confiança das pessoas que tanto gostavam dele.

Depois de escutar, pedi para ir lá. Meu pai me levou, mas não deixaram eu ver o corpo. Meu pai não parava de repetir, dizendo que não fazia questão de botijão de gás, que não entendia o porquê de tanta tragédia por nada, como se desculpando por ser o dono do bem furtado. A rua ficou de luto por muito tempo. Paulinho era um membro da família da nossa rua. Passado tanto tempo, acho que não consigo encontrar um filho de Deus que se mataria porque foi pego roubando um botijão de gás. Não existem mais Paulinhos por aí.

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